Democratas alimentam esperança e impõem-se paciência, numa noite em que o sonho lhes fugiu
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Biden exprimiu confiança na vitória, mas avisou que ela pode não ficar selada esta quarta-feira. Ilusão de uma vantagem alargada esfumou-se a meio da noite: nem o candidato presidencial arrasou nem o partido deve reconquistar a maioria no Senado. Continuará, ainda assim, a dominar a Câmara dos Representantes
Paciência e esperança foram o alfa e o ómega do Partido Democrata na noite de terça para quarta-feira nos Estados Unidos da América. Minutos antes da 1h (6h em Lisboa) um sorridente Joe Biden subiu ao palco em Wilmington, Delaware, para elogiar numa curta intervenção a “paciência louvável” dos seus apoiantes. Acredita estar “a caminho de ganhar esta eleição”, mas avisou que os resultados podem só ser conhecidos “amanhã ou mais tarde”.
“Não cabe ao Presidente Trump nem a mim declarar quem ganhou”, afirmou Biden, para quem essa decisão pertence apenas ao povo americano. O ex-vice-presidente exige que a corrida só se considere acabada “quando todos os votos estiverem contados”. Minutos depois publicou excertos do seu discurso no Twitter, enquanto o Presidente o acusava na mesma rede social de estar “a tentar roubar a eleição”. O Twittter marcou essa publicação como enganadora.
“Sentimo-nos bem onde estamos”, afirmou o antigo vice-presidente, que reconheceu surpresa por estar a disputar a vitória na Geórgia e declarou estar “confiante” em relação ao Arizona e “com sensação muito boa” quanto ao Michigan e o Wisconsin. Triunfos nesses estados podem compensar as derrotas noutros vistos como cruciais: Ohio, Florida ou Iowa, por exemplo. Expressou ainda crença num triunfo na Pensilvânia, pois, explica, tem recebido dados encorajadores de condados cruciais daquele estado.
Há caminho (sinuoso) para a Casa Branca
As derrotas no Ohio ou na Florida foram um balde de água fria para os democratas. Os mais otimistas sonharam arrebatar o Texas aos republicanos (o que não sucede desde 1972) e granjear na própria noite eleitoral uma vantagem que permitisse inferir a vitória final de Biden, pondo cobro a quaisquer tentações de Donald Trump de questionar os resultados. Acontece que a contagem está, à hora a que este texto é escrito, muito renhida ou atrasada em vários estados fundamentais, como Pensilvânia, Geórgia, Michigan ou Wisconsin.
À hora de publicação deste texto, Biden somava 223 votos no Colégio Eleitoral, na projeção de “The New York Times”, contra 212 de Trump. O democrata vencia nos estados de Califórnia, Colorado, Connecticut, Delaware, Havai, Illinois, Maryland, Massachusetts, Minnesota, Nova Iorque, Nova Jérsia, Novo México, Oregon, Rhode Island, Vermont, Virgínia, Washington e no Distrito de Colúmbia (zona da capital, Washington DC).
Apoiantes do antigo vice-presidente na noite que os obriga a esperar horas ou dias para saber se este venceu as eleições
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Biden conquistou ainda, já de manhã em Portugal, um delegado pelo Nebrasca, que é um de dois estados que não atribui os lugares do Colégio Eleitoral em bloco, mas por círculos (o outro é o Maine). Os restantes quatro delegados do Nebrasca foram para Trump. A via do candidato democrata para chegar aos 270 terá de passar por estados como o Arizona (11 delegados ao Colégio eleitoral, inclina-se para Biden), Wisconsin, Michigan, Carolina do Norte, Pensilvânia ou Maine, sem que necessite de ganhar em todos.
Sonho de retomar o Senado é distante
Os Estados Unidos votaram também para renovar parte do Congresso, o seu órgão legislativo. Na Câmara dos Representantes, o Partido Democrata deve conservar a maioria. De momento soma 174 lugares, contra 163 do Partido Republicano, havendo 98 por atribuir. As congressistas Alexandria Ocasio-Cortez e Ilham Omar, mulheres emblemáticas que se estrearam há quatro anos e são particularmente do desagrado do Presidente, foram reeleitas.
Já no Senado não parece fácil o desejo democrata de reconquistar a maioria. A contagem vai em 46 senadores, para 47 republicanos, faltando atribuir sete lugares dos 35 que foram a votos. Como nas presidenciais, o estado da Geórgia parece ir ser fulcral e potencialmente demorado, uma vez que elege dois senadores este ano e admite segunda volta em janeiro.
Votou-se ainda para cargos de governador em onze estados. Os democratas não foram além da reeleição de três desses titulares, tendo perdido o governo estadual do Montana.
Tudo somado, é de pés na terra (por mais que tenha querido voar) que o partido da oposição encara os próximos dias. A conclusão pacífica do processo de eleição do Presidente é a sua preocupação primordial, num momento em que Trump alega fraude e ameaça com o tribunal.