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Trump deverá perdoar o velho amigo que mentiu no Congresso. Roger Stone condenado a 40 meses de prisão

Trump deverá perdoar o velho amigo que mentiu no Congresso. Roger Stone condenado a 40 meses de prisão
Anadolu Agency/Getty Images

Roger Stone, especialista em truques sujos, acaba de ser condenado a 40 meses de cadeia. O processo tem suscitado níveis inéditos de intervenção política na justiça

Luís M. Faria

Jornalista

Roger Stone, o consultor politico e velho amigo de Trump que em novembro foi declarado culpado de sete crimes, foi esta quinta-feira condenado a 40 meses de prisão. É o culminar de um caso que tem abalado a reputação do departamento de justiça americano. Mas não deverá ser o fim da história, pois Trump tem criticado repetidamente o processo e é altamente provável que atribua um perdão a Stone antes de ele estar na iminência de ser preso. Jamais o deixará ir para a cadeia, afirma o site "Politico", citando um próximo de Trump que garante: "Não é uma questão de se. É quando". Afinal, os crimes têm a sua raíz nos esforços de Stone para ajudar o seu amigo durante a campanha presidencial de 2016.

Nessa altura, Stone vangloriava-se das suas ligações à Wikileaks, a organização que publicou diversos materiais embaraçosos para a então candidata Hillary Clinton. Anos depois, no entanto, quando o procurador especial Robert Mueller explorava a extensão dessas ligações e Stone foi convocado para depor sob juramento no Congresso, mentiu sobre o que tinha acontecido - cinco vezes, o que corresponde a outros tantos crimes. Também se recusou a fornecer documentos que lhe eram exigidos e ameaçou uma testemunha que havia tido um papel no assunto, dizendo que a matava, bem como ao seu estimado cão.

Obstrução à justiça e intimidação de testemunhas são crimes graves na lei americana, e a acusação pediu uma pena entre sete e nove anos. Mas, depois de Trump ter voltado a protestar no Twitter, o secretário da Justiça, William Barr, interveio e ordenou que fosse pedida uma pena mais baixa. Perante esta intervenção da política na justiça, os quatro procuradores encarregues do caso renunciaram ao processo e foram substituídos. Mais de 1100 antigos funcionários do departamento de Justiça publicaram uma carta aberta a exigir que Barr se demitisse para não desprestigiar mais o departamento. Embora o secretário da Justiça tenha sugerido numa entrevista que os tweets do presidente tornam impossível a sua tarefa, há uma impressão de que o problema para ele não é tanto a interferência em si mesma como o facto de os tweets a tornarem demasiado óbvia.

Ressentimento contra as elites

Roger Stone e Trump têm uma relação pessoal que remonta há quase quatro décadas. Stone trabalhou como lobbyista e consultor de Trump e o então empresário de casinos a certa altura falou dele como alguém que se gabava de fazer muitas coisas, mas não fazia nem conseguia tanto como dizia. "É um falhado completo, tenta sempre receber crédito por coisas que nunca fez", disse Trump à revista "New Yorker". Num eco dessa ideia, o filho mais velho de Trump garantiu recentemente numa entrevista à rádio Sirius XM que Stone, durante a campanha, "era um desses tipos que tentava desesperadamente ser relevante, portanto ficava numa sala escura a atirar dardos e acabou por acertar de facto nalguma coisa".

A sala escura é uma metáfora adequada, pois Stone especializou-se em truques políticos concebidos na sombra. Nascido em 1952 no Connecticut, filho de um operário e de uma repórter de um jornal local, interessou-se por política desde muito novo. Durante a adolescência, passou dos democratas para os republicanos e aos 19 anos deu um primeiro sinal do seu talento peculiar. Durante a campanha para a reeleição do presidente republicano Richard Nixon, em 1972, Trump fez uma doação a um rival dele em nome de um grupo de jovens socialistas, enviando depois o recibo para um jornal. Esse e outros truques viriam a ser revelados e Stone adquiriu a reputação de alguém inadequado para funções públicas, mesmo como assessor de um político. A partir daí, continuou na política, mas como consultor privado, acumulando uma longa lista de clientes, vários deles em cargos proeminentes no governo e no congresso.

Na década de 1980, os dois mandatos de Ronald Reagan, seguidos por um de George H.W. Bush, seu ex-vice-presidente, foram uma época de proeminência republicana que baniu o espectro do Watergate ainda a pairar sobre o partido. Para Stone, contudo, Richard Nixon - o presidente que fora obrigado a demitir-se por causa do escândalo - continuava a ser um herói. "A razão por que sou um nixoniano é por causa da sua indestrutibilidade e resiliência", explicou à "New Yorker". "Ele nunca desistia. Toda a sua carreira foi inteiramente construída à volta do seu ressentimento pessoal do elitismo. Era o síndrome pobre-de-mim. O pai de John F. Kennedy tinha-lhe comprado o seu lugar na Câmara dos Representantes, o seu lugar no Senado e a presidência. Ninguém comprou nada a Nixon. Ele ressentia-se disso. Tinha muita consciência de classe. Identificava-se com as pessoas que comiam refeições pré-preparadas, viam Lawrence Welk [popular músico e apresentador de televisão] e amavam o seu país".

Nixon tatuado nas costas

A adoração de Stone por Nixon vai ao ponto de ter tatuada nas costas a cara do ex-presidente caído em desgraça - um sucesso com as mulheres, assegura. O elemento anti-elite, que alimenta o populismo, é uma das afinidades entre Stone e Trump. Embora o atual presidente tenha herdado uma fortuna do pai, nunca foi aceite pela elite tradicional de Manhattan, que o considerava um expoente da vulgaridade - um sentimento que só cresceu quando Trump implantou a sua Trump Tower na quinta avenida, mesmo ao lado da Tiffany. Ao longo dos últimos três anos, o ressentimento tem-se estendido a todas aquelas partes do 'establishment' que contrariam o presidente, desde os serviços de 'intelligence', que mantêm que os russos interferiram a favor de Trump durante a campanha em 2016, até procuradores e juízes que se limitam a fazer o seu trabalho quando acusam e condenam aliados do presidente que cometeram ilegalidades.

Tendo sido absolvido no processo de destituição, Trump parece sentir-se ainda mais à vontade do que antes para atacar a justiça. Nos mais recentes tweets sobre Stone, ameaçou processar "toda a gente em todo o lado" por causa da investigação do procurador especial Robert Mueller, cuja última acusação foi justamente a que atingiu Stone. Para já, a juíza suspendeu a execução da sentença enquanto decide o pedido para um novo julgamento. Mas isso deverá ser temporário. Em última análise, terá de ser o presidente a assumir a responsabilidade de livrar da cadeia um velho amigo e aliado que se recusou a dizer a verdade no Congresso com objetivo de o proteger. Pouca gente duvida que isso vai mesmo acontecer.

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