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Anna Karina, a última entrevista: “Godard partia para comprar cigarros e voltava três semanas depois. Coisas duras para uma rapariga”

Morreu aos 79 anos, em Paris. O Expresso republica a entrevista divulgada antes da última visita de Anna Karina a Lisboa, em maio de 2019. Esta é a história de uma rapariga dinamarquesa que quis ‘viver a sua vida’, como num célebre filme de Godard em que entrou, e se tornou, na Paris do início dos anos 60, o rosto do movimento mais importante do cinema moderno. Anna Karina foi homenageada pelo IndieLisboa, tem mil memórias e histórias para contar e deixou-nos algumas.

Francisco Ferreira

No primeiro dia de primavera deste ano, em Paris, a meio de uma conversa numa esplanada do Boulevard St. Germain, muito perto da sua casa, perguntou-me: “Não é daqueles [jornalistas] que só gostam das minhas fotos a preto e branco, pois não?” Perguntas, já lhe tinha feito umas quantas quando esta chegou, inesperada, a trouxe-mouxe. “É que eu sei que vai querer falar do passado. Mas eu gosto da vida. E de estar viva...” Naquele instante de finais de março, de todos os filmes de que me lembro dela, foram os azuis, os amarelos e os vermelhos intensos de “Pierrot le fou” que me vieram à cabeça. O filme da “eterna juventude”, como ela diz. Quando a encontrei, o IndieLisboa já comunicara que Anna Karina seria homenageada este ano. A retrospetiva da obra, programada pela Cinemateca numa colaboração com o festival lisboeta, vai concluir-se este fim de semana nas salas da Rua Barata Salgueiro. Ao contrário do que toda a gente esperava — e do entusiasmo de criança que tinha nos olhos quando falou do ciclo em Lisboa —, a atriz de 78 anos acabaria por adiar a visita, por motivos de saúde. É uma daquelas figuras que, pelos filmes, sempre estiveram presentes na vida de tantos de nós mas, se a memória não engana, nunca ninguém em Portugal lhe tinha ainda dedicado este foco. Em Paris, falou da adolescência na Dinamarca e da paixão pelo cinema, da chegada a França, deslumbrada, no fim dos anos 50, do encontro (e do casamento) que veio logo em seguida com Jean-Luc Godard e dos “sete filmes e meio” (expressão dela) que fizeram juntos, também de alguns dos muitos realizadores com quem trabalharia depois: Rivette, Visconti, Cukor, Fassbinder... E falou do presente, apesar de tudo nela nos puxar para a melancolia.

Tornou-se atriz por acaso, quando Jean-Luc Godard reparou em si num anúncio a sabonetes. É uma história lendária. Nas entrevistas que lhe fizeram nessa época [muitas podem encontrar-se hoje no YouTube] diz que sempre teve vontade de partir, isto é, de deixar a Dinamarca e de vir para Paris. Foi o cinema que a chamou?
Eu sempre quis ser atriz, desde que me lembro, de muito pequenina, mas essa vontade de partir veio de outra coisa. Tive uma infância bastante complicada. O meu avô era extraordinário, as minhas primeiras memórias de cinema são com ele, quando me levou a ver “Bambi”, de Walt Disney. Mas a relação com a minha mãe não foi fácil. Ela nunca me beijou, nunca me preparou uma refeição na adolescência, eu ia almoçar a casa de outras pessoas, vizinhos, fazia pequenos serviços, as compras do supermercado, limpezas, coisas assim. Toda a gente gostava de mim. A minha mãe trabalhava muito, tenho de o dizer.

Teve irmãos e irmãs?
Não. Mal conheci o meu pai. Almocei com ele uma vez, no porto de Barcelona, muito mais tarde, em 1962, e nunca mais o vi desde então. Em pequena devo ter-me cruzado com ele cinco minutos nas escadas de casa, quando a minha mãe me disse que ele se ia embora. A relação com a minha mãe foi fria. Ela casou-se várias vezes, o seu segundo marido não gostava de mim. Nem eu dele. Eu tinha 17 anos. Queria ir-me embora. Não era fácil naquele tempo, a maioridade começava aos 21. Não podia assinar nada.

Mas antes disso já fizera um filme.
Sim, em 1954, tinha 14 anos! Entrei numa curta-metragem, “A Rapariga dos Sapatos”, que alguns anos depois chegou a ser mostrada em Cannes. Eu cantava e dançava por todo o lado, foi também aos 14 anos que deixei a escola, acusaram-me de fazer batota nos exames. Não era verdade e aquilo magoou-me tanto que disse nunca mais, “para a escola não volto.” Mas ia à biblioteca procurar livros, sobretudo os de Hans Christian Andersen, que sempre adorei. Nós não tínhamos livros em casa. Lia coisas sobre a Revolução Francesa, este país fascinava-me. E via filmes, muitos, claro, americanos sobretudo, e na versão original: os filmes não eram dobrados na Dinamarca.

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