Seis meses de Governo. Vera Jardim questiona estratégia económica de António Costa
24-05-2016 - 15:11
 • José Pedro Frazão

O antigo ministro do PS detecta falta de estratégia no dia-a-dia do Executivo e antevê dificuldades para o Governo cumprir os seus objectivos. Morais Sarmento diz que o governo PS é uma "manta de retalhos".

O histórico socialista Vera Jardim coloca sérias dúvidas sobre o rumo da política económica seguida pelo Governo de António Costa. No balanço de seis meses de mandato de um Governo socialista com o apoio da esquerda parlamentar, o antigo ministro da Justiça confessa reservas em relação ao caminho estratégico seguido pelo executivo.

“Esta estratégia, do ponto de vista económico, é discutível. Espero para ver”, afirma Vera Jardim, no programa “Falar Claro”, da Renascença. O antigo deputado assinala que o Governo não está a seguir o programa económico que prometeu aos eleitores.

"Todos sabemos que o programa económico do PS não era este. Este programa resultou do programa do PS, das exigências dos partidos que o apoiam à esquerda e também das negociações com a União Europeia”, observa.

Sem estratégia

Para Vera Jardim, “se isto continuar é mau”, tendo em conta que o Governo precisa de crescimento económico para cumprir a sua estratégia. “Para ter crescimento económico, precisa de investimento, Precisa de crescimento económico para criar emprego. São os três pilares fundamentais. Este está a ser o caminho, mas até agora os resultados não são brilhantes quanto ao crescimento, investimento e emprego”, complementa o antigo ministro socialista.

Confrontado por Morais Sarmento com a alegada inexistência de uma estratégia do Governo, o socialista Vera Jardim admite que "a visão ministério a ministério é difícil de perceber”. A estratégia do Executivo, complementa, está no programa do Governo. "Agora, no dia-a-dia, semana-a-semana, mês-a-mês, dou-lhe razão. Não há uma estratégia no terreno a ser desenvolvida. Há medidas, várias medidas. O Ministério da Educação tem tomado várias”, exemplifica Vera Jardim, considerando que a estratégia governativa tem sido muito dominada pela questão económico-financeira.

Dificuldades estão a aumentar

O antigo ministro PS sublinha a relevância do Governo assinalar seis meses de trabalho, atendendo às circunstâncias políticas que rodearam o seu nascimento. “Uns estavam a pensar em eleições antes do Verão. Outros temiam que este Governo tivesse tantas dificuldades em fazer um orçamento, aprovar o PEC, que de dois em dois meses iam prevendo, embora desejando, que pudesse haver dificuldades”, acrescenta o antigo deputado socialista.

Vera Jardim reconhece que essas dificuldades “estão a aumentar”. O antigo ministro considera que a economia não está a crescer o suficiente para que a estratégia do Governo dê esperanças que no final do ano surjam resultados.

“É cedo, mas os primeiros elementos não nos dão a certeza, muito pelo contrário, de que essa grande aposta estratégica do Governo venha a ter resultado”, sustenta o antigo ministro do PS.

O caminho era outro

Que alternativa ao rumo do Governo ? Nuno Morais Sarmento responde com o passado. “Estamos agora a experimentar uma alternativa. A alternativa é isto”, argumenta o antigo ministro social-democrata.

“Tivemos quatro anos de um caminho de estratégia, de consistência, previsibilidade, coerência no tempo, de articulação nas diferentes partes do projecto, do rigor, da seriedade do compromisso. Não tenho nenhuma dúvida. Os resultados falam por si. Veremos com mais seis meses qual é a diferença entre um e outro”, desafia Morais Sarmento.

O social-democrata acusa o Governo de dar prioridade aos mesmos temas do Executivo anterior, seguindo uma linha que criticava na estratégia do Governo PSD/CDS.

“ Aquilo que é suposto ter falhado era a sensibilidade social de Passos Coelho, a atenção às consequências directas na vida das pessoas. Afinal temos um governo que ao fim de seis meses diz que ainda não pode olhar para isso porque a prioridade foi a mesma que criticava aos outros. Acho que está tudo dito também nesse aspecto”, complementa Morais Sarmento.

Nuno Morais Sarmento insiste que António Costa governa “ a gerir a situação que existe em cada momento”. O social-democrata considera que o primeiro-ministro tem tido “a habilidade política de ir cosendo as coisas sem dar o fato. O que está cosido é uma manta de retalhos”.