12 mai, 2015 • José Pedro Frazão
O falhanço das sondagens nas recentes eleições britânicas e os cenários para as legislativas estiveram esta segunda-feira em debate na Edição da Noite Renascença. Os convidados foram a directora-adjunta de Informação da Renascença, Raquel Abecasis; o dirigente do partido Livre/Tempo de Avançar, Rui Tavares; e o responsável da Eurosondagem, Rui Oliveira e Costa.
Rui Tavares admite sondagens durante a campanha
“Não me choca que as sondagens sejam publicadas durante as campanhas eleitorais, porque me parece que os cidadãos sabem o que valem e o que não valem as sondagens. Sabem fazer a destrinça.”
“Previsão de mandatos em sondagens pré-eleitorais no Reino Unido é impossível”, Rui Oliveira e Costa
“No sistema maioritário, seja no Reino Unido a uma volta ou em França a duas voltas, não há previsão de mandatos em sondagens pré-eleitorais. Ninguém consegue fazer. Não se atreve. Seria uma aldrabice. É impossível. São 650 eleições, é uma impossibilidade. Era a mesma coisa que eu aqui, numa sondagem nacional, dizer que dos 308 presidentes de Câmara quantos é que vão para cada partido. Só podia acertar, mas era Euromilhões.”
“Sondagens pré-eleitorais falharam, principalmente, nos trabalhistas”, Rui Oliveira e Costa
“As sondagens davam, em média, 35% aos conservadores. Tiveram 36,9%, mais 1,9. Há aqui um desvio. Houve um voto conservador ‘escondido’, sem dúvida. E os trabalhistas, que a média das últimas cinco sondagens dava 34,8%, tiveram 30,7%, menos 4,1. O erro é mais no ‘Labour’ do que propriamente nos ‘Tories’. No entanto, realmente as sondagens davam 0,2 e foi 6,2. Há aqui uma diferença de 6%. Não há dúvida: as sondagens pré-eleitorais falharam, principalmente, no que concerne ao Partido Trabalhista, que teve menos 4%. O Partido Conservador teve mais 1,9%.”
“Não me lembro de um erro tão grande" na projecção de mandatos no próprio dia, Rui Oliveira e Costa
“No próprio dia é que eu estranho. Aí sim, há uma previsão de mandatos e não me lembro de um erro tão grande, porque de 316 para 331 são 15 mandatos. É muita coisa. Sei que o sistema é difícil, mas não consigo encontrar uma explicação.”
Proibir sondagens durante a campanha é melhor para o negócio, Rui Oliveira e Costa
“Por exemplo, se a Eurosondagem não fizer, eu tenho uma ‘pool’: um jornal em Badajoz, uma rádio em Salamanca e uma televisão na Galiza. E sem ERC, ninguém me regula, porque a ERC é a Entidade Reguladora da Comunicação Social portuguesa. Em Itália não há sondagens durante a campanha eleitoral, é uma lei que tem três anos. Nas últimas eleições não houve. Li no jornal ‘Público’ que o meu ‘concorrente’ italiano disse que nunca ganhou tanto dinheiro, porque durante aqueles 15 dias fez [sondagens] para partidos políticos, grupos económicos, embaixadas. Facturou dez vezes mais. Eu aqui durante a campanha faço duas, uma no princípio e outra no último dia. Enquanto negócio, proíbam a publicação.”
“Se tivermos 22 ou 23 partidos candidatos a dificuldade para as sondagens é muito grande”, Rui Oliveira e Costa
“[A pulverização de candidaturas] mexe muito e dificulta muito [as sondagens]. Se tivermos 22 ou 23 partidos candidatos a dificuldade é muito grande. Tudo mexe: os que estão à bica do mandato, por maioria de razão, porque para além da previsão da percentagem, temos de ter uma previsão de mandatos. Do ponto de vista de mandatos, eu espero, até porque nunca me aconteceu , a coisa estar certinha. É diferente e mais difícil. É evidente que é mais difícil.”
Maioria absoluta nas legislativas " está no limite da publicidade enganosa”, prevê Rui Oliveira e Costa
“A minha tese é que o ‘bolo’ [do PS e da coligação PSD/CDS] nas legislativas está nos 70 [% dos votos para a disputa do poder]. Para haver uma maioria em 70, um tem que ter 43 e o outro 27. Para haver maioria, a diferença do primeiro para o segundo tem que ser superior a 15. Ora, como não há nenhum estudo em que ela chegue a 5, a hipótese de algo que está abaixo de 5 passar para cima de 15 não é meramente académica, é uma não hipótese. Eu até diria que é um bocadinho publicidade enganosa, no limite da publicidade enganosa.”
“Não deveria haver restrições à divulgação de sondagens nem dia de reflexão”, Raquel Abecasis
“Acho que a lei portuguesa menoriza completamente os cidadãos e os eleitores, acho que em democracias desenvolvidas não há estas regras, o excesso de regras é uma arma dos poderosos contra os mais fracos e não deveria haver restrições nem à divulgação de sondagens nem aquela coisa ridícula do dia de reflexão, que é uma coisa cada vez mais patética no nosso sistema.”
“Gosto do dia de reflexão”, Rui Tavares
“Tem a minha discordância pessoal [Raquel Abecasis], porque eu gosto do dia de reflexão. Remete-nos para a história da nossa democracia e é um dia em que se descansa.”
“Eu não mexia [no dia de reflexão], Rui Oliveira e Costa
“Eu não mexia [no dia de reflexão]. Acho que a campanha acabar à sexta-feira não tem mal nenhum. Os comícios têm que acabar à meia-noite. Eu sei que na América há sondagens e campanha durante as eleições, até porque já se sabe o resultado de Nova Iorque e está a votar-se na Califórnia. Já se sabe o resultado, mas é uma cultura diferente. Acho que em Portugal, sinceramente, se juntamos quatro ou cinco deputados faz-se uma alteração da lei. O problema é que nem sempre é para melhor. A questão de acabar à meia-noite de sexta-feira, de não haver sondagens durante a reflexão, cumprir-se a boca de urna das 20h00 que todas as televisões têm cumprido há 15 anos. Creio que isso não é mau. É razoável esse compromisso.”