Braga da Cruz: "A paz pode estar ameaçada" se Grécia sair do euro
22 jun, 2015 • André Rodrigues
O sociólogo e ex-reitor da Universidade Católica diz à Renascença que esta “é talvez a maior crise que o projecto europeu até hoje enfrentou”, com efeitos graves para o continente. “A Europa não foi concebida para se fechar.”
Manuel Braga da Cruz acredita que no agudizar da crise o governo grego foi irresponsável, mas que as instituições europeias também não mostraram a flexibilidade que deviam.
Entre a ameaça de uma saída da Grécia do euro e um acordo de última hora, o sociólogo e professor da Universidade Católica está convencido que se a Grécia abandonar a moeda única os países mais expostos, como Portugal, vão ser afectados.
Recomenda, por isso, aos políticos que actuem "com extrema prudência, extrema exigência e extremo rigor". E aconselha: "Não podemos de maneira nenhuma pensar que temos os problemas resolvidos e que podemos ter comportamentos menos responsáveis".
Como classifica o momento que a União Europeia atravessa?
É talvez a maior crise que o projecto europeu até hoje enfrentou. E um eventual revés, se vier a acontecer, será um revés, em primeiro lugar, para a Grécia e para o seu governo, e um revés para o projecto de unificação europeia, da construção da Europa. A Europa não foi concebida para se fechar.
Estamos perante a iminência de um fracasso que não é seguramente o fracasso de todo o processo de integração europeia, mas é seguramente um rombo e um percalço grave no processo europeu.
Se a crise prevalecer, o que fica em causa?
Por um lado, a solidariedade europeia, entre todos os povos. Em momentos de crise a solidariedade deveria exprimir-se e manifestar-se um pouco mais. Fica também em causa a vontade de os vários Estados-membros se conformarem com os compromissos comunitários. A Europa não pode ser construída com desrespeitos de nenhum dos seus membros às normas comunitárias, mas, por outro lado, há momentos de crise que requerem uma maior plasticidade e capacidade de entendimento.
É isso que tem faltado de parte a parte? Tanto a Grécia como os credores têm entrado numa escalada verbal e isso não foi benéfico?
Não, de todo. E penso que há responsabilidades e culpas, repartidas. Muito embora, é bom dizer-se, não hesito em responsabilizar o actual governo grego por uma incapacidade de entender a gravidade do momento e de lançar o país num processo extremamente arriscado, que pode converter-se numa situação dramática para o povo. O governo não se dispôs a dar os passos indispensáveis para corrigir a rota da Grécia como país e, como sempre, quem mais sofre nestas situações sãos os mais fracos e os menos favorecidos.
Da parte da União Europeia creio que houve, nos últimos tempos, alguma plasticidade e alguma manifestação de disponibilidade, mas talvez no passado não tenha havido todo o entendimento indispensável para que a Grécia conseguisse sair da crise em que mergulhou e de que não é totalmente responsável. Todos sabemos que a crise que se abateu sobre a Europa é uma crise internacional. Foi uma crise provocada por irresponsabilidades financeiras, políticas e económicas que transcendem em muito o mero âmbito dos estados que compõem a União Europeia. O que é lamentável é que os últimos meses foram perdidos. Meses em que se andou a diferir, a dilatar a esconder a gravidade da situação. Deviam ter sido muito melhor aproveitados para se tentar resolver o problema.
Caso a crise não se resolva e a Grécia acabe por sair do euro, a paz pode estar em causa?
Pode estar ameaçada, designadamente no interior da própria Grécia. Eu temo por eventuais conflitos que se possam vir a desenvolver no interior do país. Se a saída do euro se consumar, a Grécia vai entrar num período de grande crise e de grande aflição. Não só financeira, mas também económica e social e isso pode provocar conflitos no interior do país. Claro que também está aberta a porta para perturbações de natureza geoestratégica. A Grécia tem vindo a encetar negociações coma Rússia a vários níveis.
Admite que a Rússia possa tirar partido desta instabilidade na Grécia?
Creio que a Rússia não está interessada em agudizar o conflito que mantém com a União Europeia, por causa da Crimeia. Aliás, a própria Rússia não está em condições financeiras para acudir à crise grega como os gregos eventualmente poderiam esperar. Mas não há dúvida que este é um factor perturbante para a paz europeia porque a Europa não pode permitir, no seu interior, focos de grande instabilidade, porque isso pode repercutir-se em todo o continente.
A União Europeia tem futuro sem a Grécia?
Deixa-me clarificar uma coisa. A saída do euro não deve significar a saída da UE. A Europa tem que se habituar a conviver com pluralidade. A exigência da integração e da pertença à União Europeia não deve passar pela exigência de pertença à moeda única. O problema é que a Europa não vai poder olhar para a Grécia com indiferença. A Grécia pode sair do euro, mas vai enfrentar uma situação que não pode deixar as instituições europeias indiferentes e sem uma disponibilidade de ocorrer ao problema da Grécia. Desse ponto de vista, não acho que uma eventual saída do euro signifique a saída da União Europeia. A Europa não se vai ver livre da Grécia e é bom que assim seja.
E quais os impactos em Portugal se se concretizar a saída da Grécia do euro? O governo diz ter provisões financeiras para aguentar as oscilações de mercado. Estamos perante um discurso credível?
A saída da Grécia da zona euro, a concretizar-se, vai ter impactos sobre todos países europeus e em particular os que estão numa situação de maior fragilidade. Desse ponto de vista vai também reflectir-se sobre nós. Claro que Portugal teve nos últimos anos um comportamento completamente diferente do grego e encontra-se hoje numa situação mais confortável. Acredito que, devido à almofada financeira que se conseguiu reunir, nos tempos mais próximos, não iremos estar tão expostos a uma especulação dos mercados. Mas as ameaças vão permanecer e nós temos que ter um cuidado extremo. Não podemos de maneira nenhuma pensar que temos os problemas resolvidos e que podemos ter comportamentos menos responsáveis do ponto de vista financeiro e da gestão do nosso orçamento. Isso vai obrigar o país a ter um rigor extremo do ponto de vista orçamental, do défice público e da gestão da divida. Isso vai obrigar o país a um maior rigor e a uma maior responsabilidade.
É preciso mais austeridade ou mais moderação?
Mais austeridade acho que não, mas vamos ver o que é que entendemos por austeridade. Se entendemos que é viver com muito maior rigor orçamental, com muito maior contenção da despesa pública e muita maior responsabilidade na gestão económica e financeira do país… aí, com certeza que vamos ter que continuar a ter esta contenção a que se chama austeridade. O país não vai poder voltar ao que fazia antes. Desse ponto de vista não haja ilusões. Qualquer que venha a ser o governo vai ter que actuar com extrema prudência, com extrema exigência e com extremo rigor. Eu estou optimista desse ponto de vista. Acho que o país não vai resvalar nos próximos tempos, porque as realidades são demasiado evidentes para obrigarem os governantes a comportarem-se de outra maneira.
Mesmo em período pré-eleitoral? Acha conveniente deixar alguma mensagem às forças políticas?
Não me sinto com legitimidade para tanto, mas subscreveria todos aqueles apelos que têm sido feitos, inclusive pelo Presidente da República, para que haja sentido de responsabilidade. Para que não se engane o povo português com promessas que ninguém está em condições de poder cumprir nos próximos tempos.
As forças mais responsáveis têm dado bem provas que estão conscientes da delicadeza e dos limites da situação. Acho que poderemos estar descansados em não temer o pior, mas temos que manter esta linha de rumo que é uma linha de contenção, de rigor e de responsabilidade. Se assim for, eu estou convencido que não temos razão para temer o pior para Portugal.