Menor trancado à chave uma semana na despensa de lar da Misericórdia
A Santa Casa de Reguengos de Monsaraz e o respectivo provedor estão acusados por nove crimes de maus tratos e três de sequestro agravado, todos por omissão. Directora da instituição responde por 24 crimes.
Um menor de 15 anos foi fechado durante uma semana numa despensa do Lar Nossa Senhora de Fátima, uma instituição de acolhimento de crianças e jovens em perigo em Reguengos de Monsaraz, e outros dois chegaram a passar dias inteiros trancados numa pequena arrecadação, similar a um armário de parede. Estes são alguns dos episódios relatados na acusação do Departamento de Investigação e Acção Penal de Évora que imputa à directora da instituição três crimes de sequestro agravado, 11 de abuso sexual de menor dependente, sete de maus tratos e três de peculato.
A Santa Casa da Misericórdia local e o respectivo provedor, Manuel Galante, foram acusados por nove crimes de maus tratos e três de sequestro agravado, todos por omissão. Há ainda quatro elementos da equipa técnica do lar com capacidade para 40 menores co-responsabilizados pelos maus tratos e pelos sequestros e duas funcionárias que respondem por agressões às crianças.
O dia-a-dia do Lar Nossa Senhora de Fátima era atribulado e faltavam regras. A acusação diz que eram “frequentes os episódios de violência física entre os menores, os episódios de ofensas verbais, desobediência, fugas e incumprimento generalizado das regras”.
Um dos menores institucionalizados começou aos 13 anos a fugir, dormindo, diversas vezes, ao relento nos bancos da praça principal de Reguengos de Monsaraz. Era aí que diariamente pedia esmola, não frequentando qualquer escola. Segundo o Ministério Público, o facto era conhecido da directora do lar, de vários elementos da equipa técnica e do provedor, mas nenhum deles diligenciava pelo seu regresso ao lar ou à escola.
A acusação relata o caso de um menor que exibia navalhas às outras crianças, chegando a queimar colegas com cigarros. A directora não só não castigou o rapaz, como lhe deu dinheiro para comprar tabaco, ofereceu telemóveis e levou-o à praia. Os registos de violência eram tantos que em Dezembro de 2012, na sequência de uma inspecção do Instituto da Segurança Social ao lar, aquele o organismo concluía que “não é possível garantir a segurança a nível da integridade física das crianças mais pequenas, facto que ressalta dos registos dos livros de ocorrências”.
A Segurança Social participou vários factos ao Ministério Público, mas o lar juvenil de Reguengos de Monsaraz só encerrou em Maio passado, na sequência da detenção da directora da instituição, que ficou a aguardar o fim da investigação suspensa de funções e impedida de entrar no concelho onde fica o lar.
Contactada pelo PÚBLICO a Misericórdia de Reguengos de Monsaraz não quis reagir à acusação, uma posição adoptada igualmente pela advogada do provedor, Leonor Pinto. Também o advogado da directora do lar optou pelo silêncio.
O Ministério Público sublinha que o rapaz de 15 anos que esteve uma semana trancado na despensa é um jovem “especialmente vulnerável”, com limitações cognitivas, carências afectivas, instabilidade emocional, comportamento agressivo e ideias suicidas. O adolescente, que fora institucionalizado aos oito anos, era um alvo fácil dos colegas. Era frequentemente agredido e ameaçado pelos colegas, “não tendo a equipa técnica tomado quaisquer medidas para proteger o mesmo dos restantes menores”, lê-se na acusação.
Para evitar as agressões o jovem, então com 15 anos, começou a pernoitar na rua ou em casa de familiares, chegando a ser encontrado pela polícia a deambular por Évora, a cerca de 40 quilómetros do lar onde vivia. A 9 de Maio de 2013 foi encontrado junto à estação ferroviária de Reguengos do Monsaraz “urinado, com fezes, arranhões nas pernas e bolhas nos pés”.
É na sequência deste episódio que a directora do lar decide trancar o jovem na despensa, um espaço sem janelas exteriores, onde pelo menos durante uma semana dormiu e comeu. Sempre de pijama, saía apenas de manhã para tomar banho e, às vezes, durante o dia para ir à casa de banho. “Enquanto permaneceu fechado na despensa, por diversas vezes, o menor teve de urinar para um copo ou para o chão da despensa, pois, apesar de bater à porta para que o levassem à casa de banho, não aparecia ninguém”, refere a acusação. Quando começou a sair da despensa, a directora ordenou que o jovem fossem algemado nos dois pulsos ou que uma das mãos fosse presa a móveis do lar. O jovem só voltou ao seu quarto a 3 de Julho de 2013, após ter sido ouvido neste caso.
Os abusos sexuais imputados à directora são relativos a um menor de 14 anos, que vivia na instituição e com quem a responsável manteve uma relação íntima. O Ministério Público dá conta que o jovem chegou a viver em casa da directora, mas rasura da acusação todos os detalhes relativos aos crimes de cariz sexual. A gravidade dos mesmos leva o Ministério Público a solicitar que a directora seja condenada na pena acessória de proibição de qualquer profissão ou actividade que implique ter responsabilidades sobre menores.
A directora também é acusada de se ter apropriado de dinheiro dos menores institucionalizados, já que era a responsável pela gestão das contas deles e tê-las-á utilizado em seu benefício. A um deles terá tirado 4480 euros entre 2011 e 2014.
Uns meses depois de assumir a direcção da instituição, em Março de 2008, a responsável deu orientações para que os menores fossem tratados como doentes e “empurrados para baixo do poder para aprender quem mandava”, o que ficou escrito no livro de actas.
Em Outubro desse ano, a responsável determinou que sempre que um menor se atrasasse a chegar ao refeitório ficaria sem comer, o que levou os menores, em algumas situações, a partirem a porta da despensa para aceder a leite e pão. Em Janeiro de 2013, na sequência da inspecção da Segurança Social, esta recomendou ao provedor e à directora que as crianças “não [fossem] privadas de alimentos”. Mas tal manteve-se até ao encerramento da instituição.
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